segunda-feira, 21 de dezembro, 2015

Alimentos orgânicos conseguem driblar a crise

Não tem tempo ruim quando se trata de oferecer à parcela mais informada de consumidores alimentos que levam o selo comprovando que foram certificados como orgânicos, isto é, produzido sem agroquímicos. Se forem do segmento carnes, o selo também indica que não contêm resíduos de antibióticos, que foram cumpridas normas para o bem-estar animal e demais requisitos relativos ao cumprimento da legislação. A crise econômica parece não ter chegado a essas seções de supermercados e demais estabelecimentos de varejo onde frutas e legumes são oferecidos à clientela. As vendas mantêm-se em ritmo constante e ascendente.
Mas isso não quer dizer que esse sofisticado e seleto segmento do mercado desfrute de posição de destaque. Ao contrário do que ocorre em países desenvolvidos, é mínima a parcela da população brasileira que se mostra atenta à qualidade da alimentação a ponto de excluir do seu cardápio pessoal produtos com resíduos de agroquímicos e sem indicação de procedência. De acordo com a nutricionista Ana Fanelli, responsável pela qualidade dos alimentos à venda na Casa Santa Luzia, na região dos Jardins em São Paulo, os orgânicos representam apenas 0,4% do total de produtos agrícolas cultivados no Brasil. A receita alcançada em 2014 ficou em cerca de R$ 2 bilhões.
"Um número nada expressivo diante dos R$ 468 bilhões de todo o setor agropecuário no ano passado", afirma Ana. Para se ter uma ideia, a participação dos orgânicos nos Estados Unidos e na Alemanha varia de 4% a 5% do total produzido naqueles países, acrescentou a nutricionista que se baseou nas informações publicadas no site "Organics Net" para as comparações. Como nos demais estabelecimentos de varejo, a demanda por orgânicos na Santa Luzia cresce por força da demanda, mas a expansão do negócio está limitada à escassez da oferta pela "ausência de cadeias produtivas e de logísticas mais organizadas", diz Ana.
Mas quem é esse consumidor interessado em pagar de 20% a 30% mais para levar para casa produtos certificados, isentos de qualquer substância que supostamente fazem mal à saúde e ao ambiente? Para o comerciante de produtos naturais Roberto Villas Boas, o que move o consumidor até suas lojas não é o altruísmo, nem a determinação de contribuir para um planeta mais limpo. Ao contrário, diz. "É o egocentrismo. A vontade de exibir um corpo perfeito e garantir o próprio bem-estar". Tanto é que, segundo informa, o produto que mais vende atualmente em suas lojas é a maca peruana, planta que alegadamente reduz o apetite e aumenta a libido. "Poucos demonstram ter o nível de consciência capaz de fazer concessões em favor do bem-estar coletivo", diz Roberto. "Quem está empenhado em aderir a esse movimento em favor da natureza vai às feirinhas de orgânicos e esses ainda são poucos".
A relativa precariedade no volume da produção e na distribuição de produtos orgânicos e sustentáveis faz parte da essência da proposta do desenvolvimento de lavouras sustentáveis para a produção de alimentos saudáveis. A atividade, segundo especialistas, vai muito além da supressão do uso de insumos químicos. O processo produtivo prevê o uso responsável do solo, da água, do ar e demais recursos naturais. Devem ser respeitadas normas ambientais, sociais, culturais e econômicas.
Outra questão observada é que a atividade deve ser desempenhada por pequenos produtores. Outro requisito é que os produtos sejam comercializados, de preferência, diretamente pelos produtores rurais, pelo sistema "compre local", o que evita o transporte dos alimentos por longas distâncias e a emissão desnecessária de carbono na atmosfera. No Brasil, os agricultores familiares são os únicos autorizados a realizar vendas diretas ao consumidor sem certificação, desde que integrem alguma organização de controle social cadastrada nos órgãos fiscalizadores.
Tantos cuidados na produção de alimentos se justificam diante de um movimento mundial, iniciado na Europa em meados do século passado pela constatação de que os recursos naturais são finitos, e para atender ao desejo de se consumir alimentos que não façam apenas bem para o corpo, mas também para o planeta e para o espírito, conforme definição do professor e pesquisador na área de Agroecologia e Agricultura Orgânica da Escola Superior de Agricultura "Luiz de Queiroz", Carlos Armênio Khatounian. Para ele, não se trata de um nicho, nem de um modismo. "Quando se pergunta para qualquer pessoa se ela prefere um alimento com ou sem veneno, qual é a resposta mais provável?" A pergunta quer demonstrar que o potencial dos orgânicos é infinito. "Cada vez mais consumidores vão aderir aos orgânicos", afirma.
Valor Economico
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